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dezembro 03, 2003

Comunidades rio acima

[Rio Uruará - Por Tracy] Chegamos ontem à noite na pequena cidade de Santa Maria, no Rio Uruará. A primeira coisa que vimos foi um pátio de madeireira e quando aportamos já dava para ver que era uma cidade com um pouco de dinheiro.

Eles têm eletricidade, vários antenas para satélite e uns bares, uma cidade madeireira. Acho que pegamos o guia errado.

Delfem voltou para o barco, conosco. Ele é o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Prainha que estava conosco por algumas semanas nas visitas comunitárias no Rio Guajará.

Nós paramos na cidade tempo bastante para umas poucas cervejas, e depois que desligaram a eletricidade na cidade às 10 horas da noite, a cidade não era tão grande no final das contas, nós continuamos subindo o rio.

De manhã, chegamos em Santa Cruz, uma comunidade pequena a oeste da área proposta para a reserva extrativista de Prainha.

As comunidades em Prainha também entregaram uma proposta para uma reserva extrativista chamada Renascer. A reserva fica a oeste de Porto de Moz e cria um corredor de 1,6 milhões de hectares. Juntas, ambas reservas serão a maior área protegida de floresta e rios sob controle comunitário no Brasil.

Estamos visitando comunidades na região para oferecer informações e suporte para a criação da reserva e ao mesmo tempo investigando a indústria madeireira na região.

E não demora muito para que a gente encontre evidências das atividades da indústria madeireira neste rio. Em apenas um dia, vimos quatro balsas, três delas repletas de toras descendo o rio e uma vazia subindo.

De manhã, investigamos as operações da Madenorte nesta área. Eles têm um pátio de madeireira não longe no rio acima do local onde estamos atracados, então baixamos numa voadeira para checar o local.

A Madenorte é uma das grandes da região e tem mais de 200 mil hectares de floresta nesta área. A empresa consome 175.000 metros cúbicos de toras por ano, 90% dos quais é exportado, principalmente para os Estados Unidos, Europa e Ásia.

Porém, não é a primeira vez que a gente encontra a Madenorte na região e eles já retiraram todas as toras do pátio.

Pela tarde, visitamos as comunidades rio acima para falar sobre o rio e convidar as pessoas para participar de um encontro em Santa Cruz. Até agora, nós tínhamos pouco contato com as pessoas desta região e os que ouviram falar de nós escutaram pela voz dos madeireiros. Aqui, ouvimos a mesma propaganda que já escutamos antes em outras comunidades. Que somos um bando de gringos, que estamos aqui para roubar a terra deles e que eles não vão poder continuar com seus sistema tradicional de vida, tirando o que precisam da terra. Delfem explica o que é a reserva com um sorriso e vestindo uma camiseta com a imagem do Che Guevara. Ele os convida a participar do encontro e fala que temos uma médica a bordo para os que precisam de assitência médica. Isto quase sempre faz as pessoas serem mais receptivas, pois os madeireiros não trazem médicos, só presentinhos baratos que não melhoram a qualidade de vida das pessoas.

Delfem explica para os comunitários que a pobreza é uma indústria e as empresas fazem dinheiro aproveitando-se de sua miséria e os políticos que só querem manter sua posição de poder.

Ele explica para a gente que as pessoas aqui não esperam ganhar as coisas de graça, então eles acham que no dia das eleições eles têm de pagar por qualquer favor e os problemas na região persistem.

Com a reserva, ele espera que as comunidades vão ter o futuro em suas próprias mãos e romper o ciclo que os mantém na miséria enquanto os outros fazem dinheiro a partir dos recursos naturais dos quais eles dependem para viver.

Cada rio e cada área tem suas próprias características e sua beleza peculiar. Aqui, o rio tem águas cristalinas e nós podemos enxergar baixo a superfície para observar a floresta submersa quando aproveitamos a viagem de volta para procurar peixes e apreciar as diferentes vegetações subaquáticas.

A viagem é apenas perturbada pelas muitas árvores caídas ou mortas ao longo da margem do rio que foram derrubadas pelas imensas balsas que passam por este estreito rio.

No encontro, pela tarde, há muitos membros da comunidade que estão entusiasmados e apoiando a reserva extrativista. Com a ajuda de nossos amigos nativos, acredito que estamos começando a construir novas relações nesta região.

Enviado por Kishi em dezembro 3, 2003 03:54 PM

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